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“A LATA DE SARDINHA”

Naquele tempo (século passado) a vida era dura, quem fosse nascido em berço de ouro, de ouro seria sua vivência, para os que nasceram num berço qualquer, tinham que se fazer à vida.

E fazer à vida não tinha idade, o dinheiro tinha que entrar , fosse  de que forma fosse, dinheiro esse apenas para matar fome.

E foi neste cenário, muito antes  do 25 de Abril de 1974, que Fernanda, a filha  mais velha de sete irmãos , teve que deixar sua cidade pequena, e com 16 anos rumar ao Porto, para servir em casa de Fidalgos (assim se dizia).

Estando ela na estação de comboio, esperando pelo mesmo, que demorava, ou ela de ansiosa chegou cedo demais, que a fome  começou a apertar.

O único dinheiro que tinha eram 2$50 (vinte e cinco tostões), que haviam  sobrado do bilhete de comboio, e foi com este único montante,  que entrou numa mercearia, para com ele comprar algo que lhe matasse a fome, até chegar à casa dos fidalgos no Porto.

Diz rapariga, disse um homem de meia idade de dentro do balcão.

Senhor por acaso vende latas de sardinha em conserva?

Claro que vendo porquê tens dinheiro para comprar?

Vinte e cinco tostões (2$50) chega para uma lata?

Mostra lá o dinheiro, vocês sabem muito.

Quando viu que a miúda não estava mentir pegou no dinheiro e deu-lhe para a mão um lata de sardinha.

Senhor, desculpe, esta lata de sardinha é em azeite ou tomate?É que eu não sei ler, e não gosto de tomate.

Claro que é em tomate , e agora põe-te a andar daqui para fora.

Toda contente Fernanda, veio para fora da estação e começou a abrir a lata, qual o seu espanto quando viu que as sardinhas estavam mergulhadas em tomate.

Muito triste , voltou à loja para reclamar.

Senhor, eu disse que não gostava de tomate, e vossemecê deu-me a sardinha em tomate, eu não gosto e tenho fome.

Olha não querem lá ver a pirralha, abre a lata de sardinha e agora quer que eu a troque era o que havia de faltar.

Mas Senhor, eu disse que não sabia ler, e que não gostava de tomate.

Olha vai fazer queixa à policia, mas põe-te a andar rápido daqui para fora antes que eu me chateie.

Fernanda de cabeça caída, triste,  com fome e sem dinheiro saiu da loja sem dizer mais nada com a lágrima no canto do olho.

Mas, de repente a esperança regressou, avistou ao longe um policia e foi ter com ele a contar o sucedido.

Que tinha ida à mercearia comprar uma lata de sardinha em azeite, e o dono a tinha enganado, dando-lhe uma em tomate.

Que faço agora Sr Policia?

Olha lá pequena, para eu fazer alguma coisa, tens que apresentar queixa naquela esquadra, e apontou para a fim da estação.

E como é que faço isso, perguntou a pequena

Pedes a quem lá estiver para escrever o que se passou, depois pagas e trazes o papel para irmos à mercearia resolver o teu problema.

Mas Senhor, quanto custa o papel que tenho que ir buscar?

A apresentação da queixa custa 2$50 (vinte cinco tostões).

Ora se eu tivesse 2$50, não ia apresentar queixa, comprava outra lata de sardinha,mas desta vez em azeite.

E foi assim a viagem até ao Porto,  sem nada na no estômago desde muito cedo.

Tempos difíceis, onde quem deveria zelar pelo povo, usava o povo.

E se fosse nos dias de Hoje?

Talvez se estivesse a discutir um IPad ou Iphone, ou outra coisa qualquer apenas para matar o tempo, e com os papás a meterem acções em tribunal por abuso.

Correia, A. (2016). Sinais dos Tempos. Lisboa: Chiado Editora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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